Em homenagem ao Dia da Consciência Negra no Brasil, 20 de novembro.

Um diálogo com Carolina Maria de Jesus

Fernanda Oliveira, Mestre em Literatura e Professora de Português e Espanhol como línguas estrangeiras no  Centro de Idiomas EP

Saraus, Projeto Cine Viela e biblioteca comunitária com o seu nome.

Mestrado no Chile, literatura marginal, feminina, negra, Carolina.

Jesus, o mesmo sobrenome da minha família materna, da minha mãe, figura de admiração e semelhança com a sua história de luta, sofrimento, de coragem.

Medo, rejeição, medo, insegurança, medo, isto não é literatura Fernanda. Peraê, mas o que é literatura então? Se não dialoga com a vida, com o ser humano, se não é esta que fica no tempo e no espaço? O que é literatura então? Ok, então a qual gênero textual pertence? O que são os gêneros? Quem os determina e legitima? Por quê?

Pode ser testemunho, autobiografia, mas não é literatura. Ok, não importa como o definam é sobre este mesmo que quero e vou trabalhar…

É literatura profe, é Carodivina. De vida. De Carolina Maria de Jesus. Nunca ouvia falar dela?

Estas ideias soltas definem grosso modo meus primeiros contatos com a sua obra Carolina e a resistência que enfrentei para poder analisá-la. Afinal falar sobre oprimido como você fez e nas suas condições de mulher, negra e pobre causou e tem causado impacto; muito mais do que você imagina. O que cumpre a sua vontade quando dizia que as suas letras jamais seriam apagadas. Nunca foram, nunca serão.

Sua literatura é tão viva, é tão contemporânea, tão impactante, é um tapa na cara constante no nosso comodismo. Fique tranquila, pois você ainda tem tirado muita gente da sua zona de conforto. Da minha então nem se fala…

Neste diálogo contigo vou mencionar algumas polêmicas que envolvem a sua obra dialogando com a minha experiência em relação a elas. São apenas reflexões um tanto vagas, minha intenção aqui não é aprofundá-las, nem seria possível. Quem sabe possa ir ao encontro de algum semelhante que também está lutando para se encontrar, se posicionar no mundo.

Bom, vamos lá. Primeiramente comentemos o que se refere à definição do gênero textual e características dos seus livros.

Por que essa mania de etiquetar tudo né? Tenho uma sensação ambígua a respeito. Se você não dá nome às coisas elas parecem não existir, ou na homogeneidade de outras afins perdem o seu valor peculiar. Por outro lado, ao enquadrar muito um gênero, um estilo, não seria minimizar o seu potencial literário?

Quando digo nisso, penso nos conceitos e discussões sobre literatura afro-americana, afro-brasileira, africana, marginal, de testemunho, memorialística e tantos outros términos que por aí surgem, nos quais a inclusão dos seus textos são polêmicas e variadas, dependendo de QUEM os legitima. Como sempre…

No mais, sua obra sempre causou e causa sensações de estranhamento e admiração em relação ao desconhecido.

Sim, o desconhecido. Este que é uma ameaça aos padrões pré-estabelecidos. Questionamentos de literatura e gêneros textuais linguagens e recursos textuais adotados não são bem-vindos quando não estão pré-legitimados por alguém e você sabe bem o que isso representa, pois lutou contra um mercado literário ideológico que se recusava a inseri-la nos seus circuitos intelectuais. E não podia ser diferente não é mesmo? Você representava uma ameaça ao poder político. Desta forma, alguém editava e publicava para você, organizando as ideias e projetando-a no mercado editorial, mas quiseram manipulá-la como um ventríloquo e você mesma disse que se recusava a isso.

O que poucos reconhecem deste feito é que esta intervenção extraliterária acontecia de maneira controlada, ou seja, seus editores não escreviam para você ou recopilavam o que diziam. Digo isso porque conversando um dia com uma das maiores pesquisadoras sobre o gênero testemunho na América Latina, Elzbieta Sklodowska, ela me comentava que você era a primeira mulher a escrever testemunho de autoria própria neste continente, o que me surpreendeu muito porque os nomes mais destacados desse gênero são da guatemalteca Rigoberta Menchú em um primeiro momento e a boliviana Diomitila Chungara, mas os casos delas são bem diferentes do seu porque foram recopilados e editados; daí o seu pioneirismo.

O segundo ponto é sobre a recepção da sua literatura no Brasil. Além das sensações de estranhamento e admiração causadas, há uma tendência de esgotá-la na academia e apagá-la nos meios públicos. Explico-me. Ao decidir pesquisar sobre você, notei uma gama muito variada de estudos que circulavam nos meios acadêmicos, no entanto, nenhum dos meus amigos (considerando que sou da periferia de São Paulo e que tenho contatos com pessoas com variados graus de instrução), a conheciam, nem sequer tinham ideia do que foi a riqueza das suas peripécias literárias. Contraditório não?

Para a primeira mulher negra, pobre e com pouca instrução que dedicou sua vida aos filhos e as letras? Isso porque nem menciono a Maria Firmina dois Reis com a magnífica obra Úrsula, essa ainda é menos conhecida. É que sobre os malefícios da modernidade tão pulsantes e latentes são contigo mesmo.

Parece que estavam todos muito ocupados em continuar reproduzindo o olhar e a influência estrangeira, branca, de boa situação econômica e alto nível de escolaridade.

Fernanda, mas muitos autores retrataram a figura do oprimido seja do sertanejo, do negro, da mulher etc. Ok, obras louváveis, referências sempre, mas terá o mesmo olhar aquele que fala sobre a fome e aquele que passa fome? Você já bem o disse quando afirmava que somente aquele que conhece a fome é que poderia descrevê-la.

Bom, também não posso deixar de mencionar o surgimento de movimentos periféricos literários que as resgataram (e foi por um deles que a conheci não na faculdade de letras); as iniciativas de organizar antologias de escritores afrodescendentes, os inúmeros grupos de pesquisa. O gigante está acordando e precisamos levá-lo para passear por todos os cantinhos do mundo, principalmente do nosso Brasil e me refiro às inúmeras Carolinas e Carolinos que estão produzindo arte por aí. Bora expor, dialogar, criticar o que foi feito e está sendo feito.

Bom, ainda há muito por discutir aí, por reivindicar teorias e/ou valorização das já existentes que enfoquem o sujeito feminino negro no Brasil. Ainda estou te descobrindo e adoro pensar que sempre me traz algo novo.

E é encorajada pela tua ousadia que me permiti neologismos, este pseudoensaio, sem referências, nem mil citações e notas de rodapé, pois eu já tenho que fazer tudo isso para poder jogar o jogo das academias de ter um lugarzinho ao sol nas esferas da crítica literária, ter algum status e conseguir me manter, viver “bem”; mas você bem sabe que a resistência é forte e falar de mulher e negra não é muito bem visto em determinadas circunstâncias.

De qualquer forma, é um prazer conversar contigo, sempre, afinal me apego a você e todas as referências de bravas mulheres que a tua literatura me despertou, a começar pela minha mãe Elisete Oliveira de Jesus, essa sempre foi e nunca deixará de ser.

Espero que o teu grito também possa ecoar e guiar a outras pessoas, a outras mulheres que estão em busca constante de autoconhecimento, orientação e projeção no mundo. Viver é isso aí e que lindo é.

Que o sol, o astro rei como você dizia, venha brilhar para todas e que possamos socializar ideias e produzir nossas artes e encontrar um lugar em que possamos florescer.

Um axé, um salve e viva a sua literatura e a todas as bravas mulheres que na labuta diária marcam existência!

Mais informações sobre a autora:

Biografia-https://www.vidaporescrito.com/bibliografia-de-carolina

Obras-https://www.dropbox.com/sh/e67jbpvtzxv3azi/AABpolBjwhfawXw8LbXG8Koaa?dl=0

Fernanda Oliveira Matos
Mestre em Literatura
Universidad de Chile
Professora de português/espanhol como língua estrangeira no Centro de Idiomas EP

Publicado em: https://www.geledes.org.br/um-dialogo-com-carolina-maria-de-jesus/

Matos, F.O.  Um diálogo com Carolina Maria de Jesus. Jesus, Carolina Maria de. Onde estaes Felicidade?. Org. Dinha e Raffaella Fernandez. Edições Me Parió REvolucão, São Paulo, 2014.